Olhar atentamente para uma criança enquanto ela dorme aconchegada a você mesmo: poucas coisas há na vida que mais nos despertem tão agudamente o questionamento último da existência, o
por quê último de toda a realidade. Falo isso porque a maioria das outras ocasiões em que somos levados a olhar nos olhos do sentido último da vida vêm normalmente acompanhadas de um desassossego que, de algum modo, tiram um pouco da pureza de uma reflexão entregue a si mesma. No caso da contemplação do rosto de uma criança de seis meses enquanto dorme, ou quando está quase dormindo, parece que é a própria vida que nos embala e aconchega. Há uma confirmação ontológica e atual da positividade última de existirmos - com todas as deficiências e desenvolvimentos que também confirmam nossa finitude - e de existir a realidade, em toda a riqueza de sua diversidade. De alguma forma, talvez isso ajude o fato de as pessoas 'modernas' serem favoráveis ao aborto e terem tanto pavor da morte. Pois uma verdadeira positividade da vida só é possível se é entrevista uma positividade que ultrapasse a morte. Que comece e faça sentido agora, mas que não seja dissolvida com a morte. Do contrário, perde todo o significado qualquer ação humana.
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