O perigo dos extremos
A tendência de se abrigar, enquanto mais jovens - ou querendo parecer, ou querendo teimar em continuar a ser o que não se é mais - em uma posição que tudo questiona, que quer começar tudo de novo outra vez, do "zero", destruindo ícones e construindo novas formas, novos conceitos e gerando novidades com o único intuito de desalojar 'o que está aí' se contrapõe a um certo imobilismo, um fixismo que procura com o mesmo extremismo, com a mesma energia polarizadora, se agarrar com unhas e dentes a uma certa forma consagrada em um determinado período da história. Essas tendências opostas - um tradicionalismo datado (um pleonasmo) e um 'novidadismo' auto-referente - podem ser verificadas tanto nas artes como em várias esferas da cultura, como a filosofia ou a religião.
Nesta última, pode-se perceber isso de forma clara se olharmos para a história recente do catolicismo. Após o Concílio Vaticano II houve como que uma espécie de 'empobrecimento' da austeridade litúrgica das missas católicas. Essa austeridade lhe conferia, de fato, uma beleza ímpar cada vez mais contrastante com o corre-corre da modernidade. Por um lado, isso poderia ser um fator de um distanciamento cada vez maior entre a religião católica e o homem moderno. Visto por outro ângulo, porém, é justamente essa austeridade que poderia sempre preservar e deixar sempre à disposição dessa humanidade moderna um mundo ao qual ele teria sempre menos possibilidade de acessar. Houve excessos na maneira como o concílio foi interpretado e utilizado por alguns (muitos) e também houve excessos no modo como foi rejeitado e mal-compreendido por outros (não tão numerosos e com bem menos 'poder de fogo' na grande mídia). Pode-se quase dizer que houve uma espécie de 'aliança' entre essa grande mídia e a corrente dos assim auto-denominados 'progressistas', que brandiam o Vaticano II como uma espécie de ruptura com um 'passado sombrio' da 'antiga' Igreja e uma sua abertura aos novos tempos. Em minoria, do outro lado, os chamados 'conservadores' - às vezes xingados de 'ultra-conservadores' - lançavam anátemas ao concílio, afirmando que ele não trouxera nada de bom para a Igreja. Ele teria apenas dilapidado e vilipendiado o grande tesouro da tradição católica. Acho que nem uma coisa nem outra, e um pouco das duas.
A Igreja não vive tempos fáceis hoje. Não se sabe, e é arriscado qualquer palpite mais convicto, se viveria tempos melhores caso tivesse continuado com a mesma face da década de 50. Muita coisa preciosa foi barateada nesse meio termo, mas muitos e novos elementos foram dados aos católicos para que estes enfrentem a modernidade de cabeça erguida e não necessariamente amparados por alguma doutrina filo-marxista. Afinal, se Cristo é a Verdade, essa Verdade deverá ser válida em qualquer tempo, e é isso que está sendo posto à prova atualmente, de uma forma dramática. Essa dramaticidade, no entanto, não é, de forma alguma, estranha ao cristianismo. Ao contrário, faz parte de sua essência. É de sua essência ser 'combatido' pelo mundo. E o cristão é, desde o início de sua história, chamado a combater 'o bom combate'. Um dos três elementos consagrados pelo catolicismo para esse bom combate é justamente a Tradição. O refúgio na Tradição da Igreja sempre foi e sempre será um remédio adequado para qualquer tipo de conturbação ou falta de identidade pelas quais ela sempre estará ameçada enquanto caminhar neste mundo, peregrina e pecadora. Só um olhar sereno para a Tradição conseguirá evitar o perigo de um tradicionalismo fixista e calcificado e de um 'catolicismo pós-moderno' protestantizado. E seja ressaltado aqui que a protestantização do catolicismo não é um fenômeno que esteja mais presente nas celebrações carismáticas do que - muito mais perigosamente - na individualização e 'privatização' da fé católica - como se isso fosse possível. Um complexo anti-romano acaba por unir, de certa forma, esses dois extremos. Um - o tradicionalista - tenta ser mais papista que o próprio papa e, se não consegue, chega mesmo a criar um cisma na Igreja. O outro lado tenta ser anti-papista, afirmando que isso, sim, é ser verdadeiramente católico.
Mais uma vez, o grande recurso que os católicos têm para se livrar dessas duas tendências sectárias é a postura exemplar dos seus santos. Os santos atuais da Igreja, aqueles que vivem ou que viveram nestes últimos anos, e que remetem nosso olhar para o único Santo dos Santos e para a ação vivificante de seu Santo Espírito. Na atitude de pessoas que viveram na carne a fidelidade à Igreja com humildade, mesmo diante das mais cruéis ou veladas perseguições, está a pista para o antídoto contra os excessos. São elas que nos mostram que a Tradição da Igreja é viva e, na perenidade de suas verdades, descobre novas formas de diálogo que enfrentem a dura tarefa de resgatar o homem de hoje do emaranhado confuso de informações a que está submetido, e restaurando-lhe sua verdadeira humanidade, que busca não menos que o infinito. Só um relacionamento leal com a Tradição permite que não se caia nem no tradicionalismo formalista nem na perda da memória, conseqüência de pretensos 'rompimentos' com o passado.
Por um lugar à mesa: Resnikoff
Há 13 anos