Conversei rapidamente com o maestro Gennady Rozhdestvensky, grande regente russo nascido em 1931. O ensaio da Décima Sinfonia de Dmitri Schostakovich (1906-1975) havia acabado poucos minutos antes. Rozhdestvensky mantivera sua fama de fazer ensaios curtos, encerrando o ensaio 1 hora antes do normal. Incrivelmente, ninguém sentiu falta dessa hora, pois ele fez tudo o que quis com essa grande música, em seus gestos econômicos, mas extremamente expressivos e acompanhados de um certo bom humor que ajudou, de alguma forma, a chamar a atenção da Sinfônica de São Paulo para os inúmeros detalhes da obra. Na conversa rápida, perguntei-lhe se havia encontrado com Schostakovich. "Me?! A thousand times!!", respondeu-me em tonalidade intermediária entre o orgulho e a serenidade dos seus mais de 78 anos. "E como ele era?", insisti. "A simple genius!", soou a resposta, precisa e econômica como os seus gestos no ensaio. Falei para ele, então, que considero a obra de D. Schostakovich talvez a melhor tradução musical do século XX. Ele balançou a cabeça em concordância e acrescentou, de forma definitiva: "A mirror! He is the musical mirror of the XXth century", e se despediu educadamente.
Fiquei repensando na vida e obra desse compositor russo que praticamente nasceu e viveu junto com a Revolução de 1917. Viveu toda a esquizofrenia que o stalinismo incutiu em sua alma, tendo de submeter suas composições à aprovação de comissariados de burocratas que julgavam se as músicas tinham valor para a sociedade ou se representavam o decadentismo burguês. Caiu em desgraça e foi reabilitado mais de uma vez. E usou de um artifício interessante para, em meio às "descrições" do valor do grande povo soviético, colocar em várias de suas músicas uma "assinatura" musical: as notas ré, mi bemol, dó, si natural. Na grafia musical alemã: D, Es (que soa 's'), C e H - D.SCH. E foi usando notas musicais - algo quase herético para os "compositores" ditos contemporâneos - que ele conseguiu captar musicalmente a alma do homem do século XX, com sua ironia melancólica, seu grito - seu apelo, como diz Camus - que parece ressoar no vazio kafkiano da desesperança, e a força quase esmagadora das tradições populares que sobrevivem, não se sabe como. Muito mais contemporâneo - porque mais humano, e ligado à história que vivia - do que qualquer artificialismo cerebral pretensamente cosmopolita que ressoa pelas faculdades de música mundo afora.
Por um lugar à mesa: Resnikoff
Há 13 anos