segunda-feira, 23 de março de 2009

O espelho musical do século XX: Dmitri Schostakovich

Conversei rapidamente com o maestro Gennady Rozhdestvensky, grande regente russo nascido em 1931. O ensaio da Décima Sinfonia de Dmitri Schostakovich (1906-1975) havia acabado poucos minutos antes. Rozhdestvensky mantivera sua fama de fazer ensaios curtos, encerrando o ensaio 1 hora antes do normal. Incrivelmente, ninguém sentiu falta dessa hora, pois ele fez tudo o que quis com essa grande música, em seus gestos econômicos, mas extremamente expressivos e acompanhados de um certo bom humor que ajudou, de alguma forma, a chamar a atenção da Sinfônica de São Paulo para os inúmeros detalhes da obra. Na conversa rápida, perguntei-lhe se havia encontrado com Schostakovich. "Me?! A thousand times!!", respondeu-me em tonalidade intermediária entre o orgulho e a serenidade dos seus mais de 78 anos. "E como ele era?", insisti. "A simple genius!", soou a resposta, precisa e econômica como os seus gestos no ensaio. Falei para ele, então, que considero a obra de D. Schostakovich talvez a melhor tradução musical do século XX. Ele balançou a cabeça em concordância e acrescentou, de forma definitiva: "A mirror! He is the musical mirror of the XXth century", e se despediu educadamente.
Fiquei repensando na vida e obra desse compositor russo que praticamente nasceu e viveu junto com a Revolução de 1917. Viveu toda a esquizofrenia que o stalinismo incutiu em sua alma, tendo de submeter suas composições à aprovação de comissariados de burocratas que julgavam se as músicas tinham valor para a sociedade ou se representavam o decadentismo burguês. Caiu em desgraça e foi reabilitado mais de uma vez. E usou de um artifício interessante para, em meio às "descrições" do valor do grande povo soviético, colocar em várias de suas músicas uma "assinatura" musical: as notas ré, mi bemol, dó, si natural. Na grafia musical alemã: D, Es (que soa 's'), C e H - D.SCH. E foi usando notas musicais - algo quase herético para os "compositores" ditos contemporâneos - que ele conseguiu captar musicalmente a alma do homem do século XX, com sua ironia melancólica, seu grito - seu apelo, como diz Camus - que parece ressoar no vazio kafkiano da desesperança, e a força quase esmagadora das tradições populares que sobrevivem, não se sabe como. Muito mais contemporâneo - porque mais humano, e ligado à história que vivia - do que qualquer artificialismo cerebral pretensamente cosmopolita que ressoa pelas faculdades de música mundo afora.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Camus e a liberdade absurda

a confrontação entre o apelo humano e o 'silêncio despropositado do mundo'

Agora o principal está feito. Detenho algumas evidências de que não posso me separar. O que sei, o que está certo, o que não posso negar, o que não posso rejeitar, eis o que vale. Posso negar tudo ness parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos esse desejo de unidade, essa fome de resolver, essa exigência de clareza e coesão. Posso contrariar tudo nesse mundo que me envolve, me choca ou me transporta, menos esse caos, esse rei acaso e essa divina equivalência que nasce da anarquia. Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo. Que significa, para mim, significado fora da minha condição? Só tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-las. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem fazer intervir uma esperança que não tenho e que nada significa nos limites da minha condição?

trecho retirado de O Mito de Sísifo, de Albert Camus

segunda-feira, 16 de março de 2009

Música contemporânea: reflexo do pensamento moderno

Fui convidado para fazer parte de uma gravação de músicas de compositores atuais, alguns de nome já relativamente conhecido, outros recém-formados em algumas das academias mais conceituadas do país - USP e Unicamp, por exemplo. Não tive como recusar, pois era um projeto bem organizado, que não entraria em conflito com minhas obrigações musicais com a Sinfônica do Estado de São Paulo, onde trabalho, e com uma boa remuneração, que é benvinda nessas circunstâncias atuais - fim de reforma da casa + filha nova na área.
O trabalho vem sendo feito há mais de uma semana, mas não tenho como não pensar na distância abissal entre o que os próprios músicos acreditam, de fato, que seja música e aquilo que vem sendo "composto" atualmente, aquilo que parece ser o resultado da "evolução" musical empreendida ao longo das décadas do glorioso século XX. E falo isso como músico instrumentista, uma opinião partilhada com os colegas que estão gravando junto. Fico pensando como é que chegamos a isso e o que isso que estamos gravando tem a ver com a realidade que vivemos, que relação há entre essa "criação artística" e a vida. E o pior é que acho que, infelizmente, há uma ligação, sim, entre essa cultura destilada diretamente da Academia e a chamada "ditadura do relativismo" que respiramos nos dias de hoje. De uma certa forma, por mais torta que seja essa forma, esses compositores expõem, de forma clara e evidente a quem quer que se habilite a ouvir, a tradução em música da total falta de crença e a total impossibilidade de afirmação positiva de mais nada. Nesse rumo, pode-se perfeitamente dizer que há algo de "genial" naquilo... Mas que as aspas que cercam esse termo - genial - sejam bem percebidas, para que a relatividade tão atual do termo seja percebida em toda a sua exuberância