quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Viktor Frankl: responsabilidade individual e coletividade

trecho de uma entrevista ao professor Eugenio Fizzotti, salesiano professor de psicologia, sobre o pensamento do criador da Logoterapia


–Quais as contribuições de Viktor Frankl ao conhecimento humano e que atualidade elas têm?

–Professor Fizzotti: Concentrando sua atenção como psiquiatra e como estudioso na construção psicológica da «busca do sentido», Frankl favoreceu no horizonte cultural e formativo atual o reconhecimento de um dinamismo central da estrutura da pessoa, na maior parte das vezes lamentavelmente descuidado, ou até negado por outros especialistas da psique humana. É muito mais simples, de fato, atribuir a responsabilidade do que se é à influência familiar, a condicionamentos ambientais, a fracassos escolares ou profissionais. Assim, a pessoa quase é «justificada» em seus comportamentos (pensemos em formas de agressividade, de criminalidade, de consumo de substâncias entorpecentes, de tentativas de suicídio), dizendo-lhe: «No fundo não é culpa sua, mas da sociedade, da escola, da família». Em um itinerário educativo e de crescimento global é muito necessário, no entanto, favorecer na pessoa o amadurecimento de sua responsabilidade frente às tarefas que a vida, a sociedade, o contexto cultural lhe apresentam. Dessa forma, também é estimulada a reconhecer os próprios recursos interiores e apelar a eles sempre, além de fazê-lo nas situações de particular gravidade. Ao mesmo tempo, a responsabilidade favorece na pessoa um clima de enfrentamentos dialéticos, rompendo o círculo da solidão e do egocentrismo.

(a questão de onde está a responsabilidade última dos nossos atos é algo sempre atual. Por isso mesmo acho importante o ponto de vista de V. Frankl a respeito da importância de uma educação que leve o indivíduo a uma procura pelo fundamento último que sustenta sua visão de mundo. Ou seja, aquilo que, para ele, daria sentido à própria existência e à realidade como um todo. Obviamente, é uma questão extremamente aberta, mas é justamente por isso que deve sempre ser retomada, pois pode representar sempre uma possibilidade de se evitar, como o entrevistado afirma, a solidão egocêntrica e a coletivização exagerada de responsabilidades e de uma liberdade que, em última instância, são pessoais, individuais.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pio XII


Novos documentos provam amizade do Papa Pio XII com judeus


Documentos descobertos recentemente provam que Pio XII teve gestos de amizade e proteção para com o povo judeu antes, durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Assim divulgou ontem, através de um comunicado, a Fundação Pave The Way (PWTF), que se dedica a promover o diálogo entre as religiões.
As descobertas foram realizadas pelo historiador alemão Michael Hesemann, autor da obra The Pope Who Defied Hitler. The Truth About Pius XII («O Papa que desafiou Hitler. A verdade sobre Pio XII»). Hesemann, assessor da PWTF, revela ter encontrado uma série de documentos no Arquivo Secreto Vaticano que acreditam numerosas intervenções do Papa Pacelli a favor dos judeus.
Uma das descobertas é a de uma intervenção do arcebispo Pacelli, então núncio apostólico na Baviera, datada de 1917, através do governo alemão, para pedir que os judeus da Palestina fossem protegidos frente ao Império Otomano da Turquia.
O Dr. Hesemann mostra também que em 1917, o futuro Pio XII utilizou sua influência pessoal para que o então representante da Organização Sionista Mundial, Nachum Sokolov, fosse recebido pessoalmente por Bento XV para falar sobre uma pátria judaica na Palestina.
Em 1926, Dom Pacelli animou os católicos alemães a apoiarem o Comitê Pró Palestina, que apoiava os assentamentos judaicos na Terra Santa.
Estas descobertas se unem às provas oferecidas pelo próprio presidente da PTWF, Gary Krupp, das quais o congresso sobre Pio XII celebrado em setembro de 2008 em Roma apresentou mais de 300 páginas de documentos originais, que contêm detalhes de como se levou a cabo a ordem do Papa, durante a guerra, de esconder os judeus em Roma.
Estes documentos, que podem ser baixados no site da fundação, recolhem, entre outros, um manuscrito de uma freira, datado de 1943, que detalha as instruções recebidas do Papa, assim como uma lista de judeus protegidos.
Outro dos documentos é um informe do US Foreign Service, do cônsul americano em Colônia, que informa sobre o «novo Papa» em 1939. O diplomata se mostra surpreso pela «extrema aversão» de Pacelli a Hitler e ao regime nazista, e seu apoio aos bispos alemães em sua oposição ao nacional-socialismo, ainda à custa da supressão das Juventudes Católicas alemãs.
Também se oferece um documento de 1938, assinado pelo então Secretário de Estado Eugenio Pacelli, no qual ele se opõe ao projeto de lei polonesa de declarar ilegal o sacrifício kosher, ao entender que esta lei «suporia uma grave perseguição contra o povo judeu».
Já como Papa, durante a guerra, Pio XII escreveu um telegrama ao então regente da Hungria, almirante Miklós Horthy, para que evitasse a deportação dos judeus, e este acedeu, o que se estima que salvou cerca de 80 mil vidas. Ao governo brasileiro pediu que aceitasse a 3 mil «não arianos».
Outro dos documentos que PTWF oferece é uma entrevista com Dom Giovanni Ferrofino, secretário do núncio no Haiti, Dom Maurilio Silvani. O prelado afirma que duas vezes por ano recebia telegrama cifrado da parte de Pio XII que remetia ao general Trujillo, presidente da República Dominicana, para pedir-lhe em nome do Papa 800 vistos para os judeus, com o qual se estima que pelo menos 11 mil judeus foram salvos por esta via.
Também se ofereceram provas de que o Vaticano falsificou secretamente certidões de batismo para permitir que muitos judeus migrassem como «católicos».
Uma descoberta pessoal
O empenho da PWTF obedece à própria determinação de seu presidente, Gary Krupp, judeu americano, que reconhece que cresceu «desprezando Pio XII», até que leu o livro de Dan Kurzman, A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII. Nele se recolhe o testemunho do general Karl Wolff, que detalha o plano de Hitler de assaltar o Vaticano e raptar o Papa Pio XII. Sabe-se que havia espiões no Vaticano e franco atiradores alemães a menos de 200 jardas das janelas papais.
A mesma restrição das declarações públicas do Papa, que foi fonte de críticas contra ele, explica-se pelo aumento dos castigos nos campos de concentração, testificado por ex-prisioneiros, cada vez que altos cargos eclesiásticos falavam contra o regime nazista.
Outra descoberta que fez Krupp mudar de sentimentos, segundo suas próprias declarações, foi a prova de que «O Vigário», a famosa obra do comunista alemão Rolf Hochhuth, apoiou-se em documentos vaticanos manipulados, como parte de um complô secreto da KGB para desacreditar a Santa Sé. Esta informação foi revelada pelo Tenente General Ion Mihai Pacepa, o agente da KGB de mais alto escalão que desertou.
Gary Krupp assegurou estar «surpreso ao pesquisar pessoalmente artigos do New York Times e do Palestine Post entre 1939 e 1958. Não pude encontrar nem um só artigo negativo sobre Pio XII».
O esclarecimento sobre a figura de Pio XII foi assumido como objetivo pela PWTF para «eliminar um obstáculo que afeta 1 bilhão de pessoas» para o entendimento entre judeus e católicos. «Por justiça, nós, judeus, devemos ser conscientes dos esforços desse homem, em um período em que o resto do mundo havia nos abandonado».
"É o momento de reconhecer Pio XII pelo que fez, não pelo que não disse", acrescenta Krupp, que considera que a causa de que esta "lenda negra" permaneça é, por um lado, "a rejeição dos críticos de Pio XII de consultar e revisar a documentação recentemente desclassificada do Arquivo Secreto Vaticano", e por outro, "a negativa da maior parte dos meios de comunicação de dar cobertura às informações positivas sobre Pio XII."

obs.: essa notícia, retirada da rede de notícias Zenit, e - pelo menos até onde sei - não veiculada por nenhum grande meio de comunicação de massa - jornais, revistas, noticiários televisivos ou páginas da Internet com grande divulgação - dá bem a mostra de como um dos grandes problemas da atualidade está ligado ao imenso poder de manipulação da mídia. Não se trata de, neste caso especificamente, querer defender ou atacar a atuação de Pio XII durante a Segunda Grande Guerra. O intuito da divulgação desse texto está em deixar claro como é veiculado, sempre, apenas uma das versões. Seria o caso, por exemplo, de perguntar se alguém já ouviu falar de algum livro que mostre a versão do Vaticano sobre o assunto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Un Mauvais Rêve (Georges Bernanos)

Sobre a tensão intergeneracional



Ganse: Et comme ils ne laisseront rien, aucun souvenir, étant la sterilité même, la posterité ne s'occupera pas de les classer, elle les rattacher bêtement aux types connus. Jusqu'à ce que des circonstances plus favorables permettent à la nature, qui ne se lasse jamais, de recommencer la tentative manquée car, en somme, ces gaillards-là, mon cher, ont eu seulement le malheur de venir trop tôt, dans un monde trop... que vou dirais-je... trop "pathétique" - voilà le mot. Pathétique, de pathein, souffrir. Le christianisme a beau se dissoudre peu à peu de lui-même, notre monde occidental n'arrive pas à éliminer les plus subtils, les plus venimeux de ses poisons. Tous ce gens n'ont l'air empressés que de jouir, mais ils ont quelque part, dans un coin secret de leur vie, un autel dédié à la souffrance. E s'ils courent après l'or - qui n'est en somme que le signe matériel de la jouissance, - c'est avec un reste de honte, parce que la Pauvreté - la sainte Pauvreté - leur en impose toujours. Les Mainville ont échappé, je ne sais comment, à cette sorte de fétichisme, à cette crasse millénaire. Et comme ils manquent incroyablement d'imagination poétique, la singularité de leurs destin ne leur apparaît qu'à peine, ils restent intacts, nets et lisses comme des salles de clinique, quoi!

G. Bernanos, Un Mauvais Rêve, Librio, 1998, p.70-71.

uma tradução amadora e quase literal:

Ganse: E como eles não deixarão nada, nenhuma lembrança, sendo a própria esterilidade, a posteridade não se dará ao trabalho de lhes classificar, ela os colocará junto aos tipos comuns. Até o ponto em que circunstâncias mais favoráveis permitam à natureza, que jamais se cansa, de recomeçar novamente após a tentativa fracassada pois, em suma, esses rapazotes atrevidos têm apenas a infelicidade de vir cedo demais a esse mundo tão... como poderia lhe dizer... tão "patético" - eis a palavra. Patético de pathein, sofrer. Por mais que o cristianismo se dissolva aos poucos, por si só, nosso mundo ocidental não consegue eliminar o mais sutil, o mais nocivo dos seus venenos. Toda essa gente aparenta ter uma disposição apenas para fruir, mas possuem algum lado, em um canto secreto de suas vidas, um altar dedicado ao sofrimento. E se eles correm atrás do ouro - que não é mais que o símbolo material da fruição - , o fazem com um resto de vergonha, que a Pobreza - a santa Pobreza - se encarrega sempre de lhes impor. Os Mainville têm escapado, não sei como, desse tipo de fetichismo, dessa sujeira milenar. E como eles sofrem de uma incrível falta de imaginação poética, e apenas a muito custo percebem a singularidade de seu destino, permanecem intactos claros e lustrosos como as salas de uma clínica, ora pois!


O trecho acima foi retirado de uma conversa entre M. Ganse, escritor já de idade avançada, e seu amigo médico, o psiquiatra Dr. Lipotte. O escritor sente-se como que ameaçado por um de seus secretários, o jovem Olivier Mainville, filho de uma mulher com quem Ganse teve um affair anos atrás - antes, segundo ele, que Olivier nascesse. Ele o tem como um protegido, mas percebe nele um ódio reprovador de tudo o que faz, e também de sua literatura.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eugenia vocabular

Novas das Ilhas Britânicas. Uma polêmica recente foi gerada pelo fato de que algumas palavras associadas ao cristianismo foram eliminadas de um dicionário inglês para jovens, editado pela Oxford University Press. Entre as palavras canceladas estão: abadia, altar, bispo, capela, batizar, discípulo, mosteiro, monge, convento, paróquia, salmo, púlpito, santo, pecado e diabo. Além desses termos religiosos foram também retiradas várias palavras que descrevem a natureza, como almíscar ou samambaia. Uma senhora chamada Vineeta Gupta (belo nome...) justificou assim as mudanças, em entrevista ao Daily Telegraph: "Se olharmos as versões anteriores dos dicionários, encontraremos ali muitos tipos de flores. Isso se devia ao fato de que muitas crianças viviam em ambientes semi-rurais (ainda não consigo escrever semirrurais, mas logo, logo me acostumo) e observavam o rodízio das estações. Hoje, o ambiente mudou. Nós nos tornamos muito mais multiculturais(!). As pessoas não vão mais à igreja, como antes. E o nosso conhecimento de religião ocorre dentro de um horizonte multicultural. Eis porque palavras como "Pentecostes" podiam ser atuais vinte anos atrás, mas hoje não".Fiquei pensando em que planeta estamos vivendo, ou, para usar um célebre questionamento cearense, que utiliza um termo riscado do tal dicionário inglês: "Que diabo é isso..."