quinta-feira, 14 de maio de 2009

Acalento e contemplação

Olhar atentamente para uma criança enquanto ela dorme aconchegada a você mesmo: poucas coisas há na vida que mais nos despertem tão agudamente o questionamento último da existência, o por quê último de toda a realidade. Falo isso porque a maioria das outras ocasiões em que somos levados a olhar nos olhos do sentido último da vida vêm normalmente acompanhadas de um desassossego que, de algum modo, tiram um pouco da pureza de uma reflexão entregue a si mesma. No caso da contemplação do rosto de uma criança de seis meses enquanto dorme, ou quando está quase dormindo, parece que é a própria vida que nos embala e aconchega. Há uma confirmação ontológica e atual da positividade última de existirmos - com todas as deficiências e desenvolvimentos que também confirmam nossa finitude - e de existir a realidade, em toda a riqueza de sua diversidade. De alguma forma, talvez isso ajude o fato de as pessoas 'modernas' serem favoráveis ao aborto e terem tanto pavor da morte. Pois uma verdadeira positividade da vida só é possível se é entrevista uma positividade que ultrapasse a morte. Que comece e faça sentido agora, mas que não seja dissolvida com a morte. Do contrário, perde todo o significado qualquer ação humana.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Fixismo e vanguarda

O perigo dos extremos



A tendência de se abrigar, enquanto mais jovens - ou querendo parecer, ou querendo teimar em continuar a ser o que não se é mais - em uma posição que tudo questiona, que quer começar tudo de novo outra vez, do "zero", destruindo ícones e construindo novas formas, novos conceitos e gerando novidades com o único intuito de desalojar 'o que está aí' se contrapõe a um certo imobilismo, um fixismo que procura com o mesmo extremismo, com a mesma energia polarizadora, se agarrar com unhas e dentes a uma certa forma consagrada em um determinado período da história. Essas tendências opostas - um tradicionalismo datado (um pleonasmo) e um 'novidadismo' auto-referente - podem ser verificadas tanto nas artes como em várias esferas da cultura, como a filosofia ou a religião.
Nesta última, pode-se perceber isso de forma clara se olharmos para a história recente do catolicismo. Após o Concílio Vaticano II houve como que uma espécie de 'empobrecimento' da austeridade litúrgica das missas católicas. Essa austeridade lhe conferia, de fato, uma beleza ímpar cada vez mais contrastante com o corre-corre da modernidade. Por um lado, isso poderia ser um fator de um distanciamento cada vez maior entre a religião católica e o homem moderno. Visto por outro ângulo, porém, é justamente essa austeridade que poderia sempre preservar e deixar sempre à disposição dessa humanidade moderna um mundo ao qual ele teria sempre menos possibilidade de acessar. Houve excessos na maneira como o concílio foi interpretado e utilizado por alguns (muitos) e também houve excessos no modo como foi rejeitado e mal-compreendido por outros (não tão numerosos e com bem menos 'poder de fogo' na grande mídia). Pode-se quase dizer que houve uma espécie de 'aliança' entre essa grande mídia e a corrente dos assim auto-denominados 'progressistas', que brandiam o Vaticano II como uma espécie de ruptura com um 'passado sombrio' da 'antiga' Igreja e uma sua abertura aos novos tempos. Em minoria, do outro lado, os chamados 'conservadores' - às vezes xingados de 'ultra-conservadores' - lançavam anátemas ao concílio, afirmando que ele não trouxera nada de bom para a Igreja. Ele teria apenas dilapidado e vilipendiado o grande tesouro da tradição católica. Acho que nem uma coisa nem outra, e um pouco das duas.
A Igreja não vive tempos fáceis hoje. Não se sabe, e é arriscado qualquer palpite mais convicto, se viveria tempos melhores caso tivesse continuado com a mesma face da década de 50. Muita coisa preciosa foi barateada nesse meio termo, mas muitos e novos elementos foram dados aos católicos para que estes enfrentem a modernidade de cabeça erguida e não necessariamente amparados por alguma doutrina filo-marxista. Afinal, se Cristo é a Verdade, essa Verdade deverá ser válida em qualquer tempo, e é isso que está sendo posto à prova atualmente, de uma forma dramática. Essa dramaticidade, no entanto, não é, de forma alguma, estranha ao cristianismo. Ao contrário, faz parte de sua essência. É de sua essência ser 'combatido' pelo mundo. E o cristão é, desde o início de sua história, chamado a combater 'o bom combate'. Um dos três elementos consagrados pelo catolicismo para esse bom combate é justamente a Tradição. O refúgio na Tradição da Igreja sempre foi e sempre será um remédio adequado para qualquer tipo de conturbação ou falta de identidade pelas quais ela sempre estará ameçada enquanto caminhar neste mundo, peregrina e pecadora. Só um olhar sereno para a Tradição conseguirá evitar o perigo de um tradicionalismo fixista e calcificado e de um 'catolicismo pós-moderno' protestantizado. E seja ressaltado aqui que a protestantização do catolicismo não é um fenômeno que esteja mais presente nas celebrações carismáticas do que - muito mais perigosamente - na individualização e 'privatização' da fé católica - como se isso fosse possível. Um complexo anti-romano acaba por unir, de certa forma, esses dois extremos. Um - o tradicionalista - tenta ser mais papista que o próprio papa e, se não consegue, chega mesmo a criar um cisma na Igreja. O outro lado tenta ser anti-papista, afirmando que isso, sim, é ser verdadeiramente católico.
Mais uma vez, o grande recurso que os católicos têm para se livrar dessas duas tendências sectárias é a postura exemplar dos seus santos. Os santos atuais da Igreja, aqueles que vivem ou que viveram nestes últimos anos, e que remetem nosso olhar para o único Santo dos Santos e para a ação vivificante de seu Santo Espírito. Na atitude de pessoas que viveram na carne a fidelidade à Igreja com humildade, mesmo diante das mais cruéis ou veladas perseguições, está a pista para o antídoto contra os excessos. São elas que nos mostram que a Tradição da Igreja é viva e, na perenidade de suas verdades, descobre novas formas de diálogo que enfrentem a dura tarefa de resgatar o homem de hoje do emaranhado confuso de informações a que está submetido, e restaurando-lhe sua verdadeira humanidade, que busca não menos que o infinito. Só um relacionamento leal com a Tradição permite que não se caia nem no tradicionalismo formalista nem na perda da memória, conseqüência de pretensos 'rompimentos' com o passado.

O paradoxo do tempo

Quanto mais se desenvolvem máquinas que nos poupariam tempo, menos tempo parece que temos

Prova disso é o fato de que só hoje, quase um mês depois que consegui um tempinho para escrever alguma coisa nesse blog, é que consegui acessá-lo de novo. E só estou escrevendo para 'cumprir tabela'. Afinal, tive pouco tempo para ler, ou ao menos para filtrar algo do que li e que pudesse ser colocado aqui. O que, também, não tem a menor importância para o caminhar - ou o correr cada vez mais desenfreado - da humanidade.
Pode-se, porém, detectar uma coerência: quanto mais o tempo passa, menos tempo temos.



segunda-feira, 23 de março de 2009

O espelho musical do século XX: Dmitri Schostakovich

Conversei rapidamente com o maestro Gennady Rozhdestvensky, grande regente russo nascido em 1931. O ensaio da Décima Sinfonia de Dmitri Schostakovich (1906-1975) havia acabado poucos minutos antes. Rozhdestvensky mantivera sua fama de fazer ensaios curtos, encerrando o ensaio 1 hora antes do normal. Incrivelmente, ninguém sentiu falta dessa hora, pois ele fez tudo o que quis com essa grande música, em seus gestos econômicos, mas extremamente expressivos e acompanhados de um certo bom humor que ajudou, de alguma forma, a chamar a atenção da Sinfônica de São Paulo para os inúmeros detalhes da obra. Na conversa rápida, perguntei-lhe se havia encontrado com Schostakovich. "Me?! A thousand times!!", respondeu-me em tonalidade intermediária entre o orgulho e a serenidade dos seus mais de 78 anos. "E como ele era?", insisti. "A simple genius!", soou a resposta, precisa e econômica como os seus gestos no ensaio. Falei para ele, então, que considero a obra de D. Schostakovich talvez a melhor tradução musical do século XX. Ele balançou a cabeça em concordância e acrescentou, de forma definitiva: "A mirror! He is the musical mirror of the XXth century", e se despediu educadamente.
Fiquei repensando na vida e obra desse compositor russo que praticamente nasceu e viveu junto com a Revolução de 1917. Viveu toda a esquizofrenia que o stalinismo incutiu em sua alma, tendo de submeter suas composições à aprovação de comissariados de burocratas que julgavam se as músicas tinham valor para a sociedade ou se representavam o decadentismo burguês. Caiu em desgraça e foi reabilitado mais de uma vez. E usou de um artifício interessante para, em meio às "descrições" do valor do grande povo soviético, colocar em várias de suas músicas uma "assinatura" musical: as notas ré, mi bemol, dó, si natural. Na grafia musical alemã: D, Es (que soa 's'), C e H - D.SCH. E foi usando notas musicais - algo quase herético para os "compositores" ditos contemporâneos - que ele conseguiu captar musicalmente a alma do homem do século XX, com sua ironia melancólica, seu grito - seu apelo, como diz Camus - que parece ressoar no vazio kafkiano da desesperança, e a força quase esmagadora das tradições populares que sobrevivem, não se sabe como. Muito mais contemporâneo - porque mais humano, e ligado à história que vivia - do que qualquer artificialismo cerebral pretensamente cosmopolita que ressoa pelas faculdades de música mundo afora.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Camus e a liberdade absurda

a confrontação entre o apelo humano e o 'silêncio despropositado do mundo'

Agora o principal está feito. Detenho algumas evidências de que não posso me separar. O que sei, o que está certo, o que não posso negar, o que não posso rejeitar, eis o que vale. Posso negar tudo ness parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos esse desejo de unidade, essa fome de resolver, essa exigência de clareza e coesão. Posso contrariar tudo nesse mundo que me envolve, me choca ou me transporta, menos esse caos, esse rei acaso e essa divina equivalência que nasce da anarquia. Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo. Que significa, para mim, significado fora da minha condição? Só tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-las. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem fazer intervir uma esperança que não tenho e que nada significa nos limites da minha condição?

trecho retirado de O Mito de Sísifo, de Albert Camus

segunda-feira, 16 de março de 2009

Música contemporânea: reflexo do pensamento moderno

Fui convidado para fazer parte de uma gravação de músicas de compositores atuais, alguns de nome já relativamente conhecido, outros recém-formados em algumas das academias mais conceituadas do país - USP e Unicamp, por exemplo. Não tive como recusar, pois era um projeto bem organizado, que não entraria em conflito com minhas obrigações musicais com a Sinfônica do Estado de São Paulo, onde trabalho, e com uma boa remuneração, que é benvinda nessas circunstâncias atuais - fim de reforma da casa + filha nova na área.
O trabalho vem sendo feito há mais de uma semana, mas não tenho como não pensar na distância abissal entre o que os próprios músicos acreditam, de fato, que seja música e aquilo que vem sendo "composto" atualmente, aquilo que parece ser o resultado da "evolução" musical empreendida ao longo das décadas do glorioso século XX. E falo isso como músico instrumentista, uma opinião partilhada com os colegas que estão gravando junto. Fico pensando como é que chegamos a isso e o que isso que estamos gravando tem a ver com a realidade que vivemos, que relação há entre essa "criação artística" e a vida. E o pior é que acho que, infelizmente, há uma ligação, sim, entre essa cultura destilada diretamente da Academia e a chamada "ditadura do relativismo" que respiramos nos dias de hoje. De uma certa forma, por mais torta que seja essa forma, esses compositores expõem, de forma clara e evidente a quem quer que se habilite a ouvir, a tradução em música da total falta de crença e a total impossibilidade de afirmação positiva de mais nada. Nesse rumo, pode-se perfeitamente dizer que há algo de "genial" naquilo... Mas que as aspas que cercam esse termo - genial - sejam bem percebidas, para que a relatividade tão atual do termo seja percebida em toda a sua exuberância

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Viktor Frankl: responsabilidade individual e coletividade

trecho de uma entrevista ao professor Eugenio Fizzotti, salesiano professor de psicologia, sobre o pensamento do criador da Logoterapia


–Quais as contribuições de Viktor Frankl ao conhecimento humano e que atualidade elas têm?

–Professor Fizzotti: Concentrando sua atenção como psiquiatra e como estudioso na construção psicológica da «busca do sentido», Frankl favoreceu no horizonte cultural e formativo atual o reconhecimento de um dinamismo central da estrutura da pessoa, na maior parte das vezes lamentavelmente descuidado, ou até negado por outros especialistas da psique humana. É muito mais simples, de fato, atribuir a responsabilidade do que se é à influência familiar, a condicionamentos ambientais, a fracassos escolares ou profissionais. Assim, a pessoa quase é «justificada» em seus comportamentos (pensemos em formas de agressividade, de criminalidade, de consumo de substâncias entorpecentes, de tentativas de suicídio), dizendo-lhe: «No fundo não é culpa sua, mas da sociedade, da escola, da família». Em um itinerário educativo e de crescimento global é muito necessário, no entanto, favorecer na pessoa o amadurecimento de sua responsabilidade frente às tarefas que a vida, a sociedade, o contexto cultural lhe apresentam. Dessa forma, também é estimulada a reconhecer os próprios recursos interiores e apelar a eles sempre, além de fazê-lo nas situações de particular gravidade. Ao mesmo tempo, a responsabilidade favorece na pessoa um clima de enfrentamentos dialéticos, rompendo o círculo da solidão e do egocentrismo.

(a questão de onde está a responsabilidade última dos nossos atos é algo sempre atual. Por isso mesmo acho importante o ponto de vista de V. Frankl a respeito da importância de uma educação que leve o indivíduo a uma procura pelo fundamento último que sustenta sua visão de mundo. Ou seja, aquilo que, para ele, daria sentido à própria existência e à realidade como um todo. Obviamente, é uma questão extremamente aberta, mas é justamente por isso que deve sempre ser retomada, pois pode representar sempre uma possibilidade de se evitar, como o entrevistado afirma, a solidão egocêntrica e a coletivização exagerada de responsabilidades e de uma liberdade que, em última instância, são pessoais, individuais.)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Pio XII


Novos documentos provam amizade do Papa Pio XII com judeus


Documentos descobertos recentemente provam que Pio XII teve gestos de amizade e proteção para com o povo judeu antes, durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Assim divulgou ontem, através de um comunicado, a Fundação Pave The Way (PWTF), que se dedica a promover o diálogo entre as religiões.
As descobertas foram realizadas pelo historiador alemão Michael Hesemann, autor da obra The Pope Who Defied Hitler. The Truth About Pius XII («O Papa que desafiou Hitler. A verdade sobre Pio XII»). Hesemann, assessor da PWTF, revela ter encontrado uma série de documentos no Arquivo Secreto Vaticano que acreditam numerosas intervenções do Papa Pacelli a favor dos judeus.
Uma das descobertas é a de uma intervenção do arcebispo Pacelli, então núncio apostólico na Baviera, datada de 1917, através do governo alemão, para pedir que os judeus da Palestina fossem protegidos frente ao Império Otomano da Turquia.
O Dr. Hesemann mostra também que em 1917, o futuro Pio XII utilizou sua influência pessoal para que o então representante da Organização Sionista Mundial, Nachum Sokolov, fosse recebido pessoalmente por Bento XV para falar sobre uma pátria judaica na Palestina.
Em 1926, Dom Pacelli animou os católicos alemães a apoiarem o Comitê Pró Palestina, que apoiava os assentamentos judaicos na Terra Santa.
Estas descobertas se unem às provas oferecidas pelo próprio presidente da PTWF, Gary Krupp, das quais o congresso sobre Pio XII celebrado em setembro de 2008 em Roma apresentou mais de 300 páginas de documentos originais, que contêm detalhes de como se levou a cabo a ordem do Papa, durante a guerra, de esconder os judeus em Roma.
Estes documentos, que podem ser baixados no site da fundação, recolhem, entre outros, um manuscrito de uma freira, datado de 1943, que detalha as instruções recebidas do Papa, assim como uma lista de judeus protegidos.
Outro dos documentos é um informe do US Foreign Service, do cônsul americano em Colônia, que informa sobre o «novo Papa» em 1939. O diplomata se mostra surpreso pela «extrema aversão» de Pacelli a Hitler e ao regime nazista, e seu apoio aos bispos alemães em sua oposição ao nacional-socialismo, ainda à custa da supressão das Juventudes Católicas alemãs.
Também se oferece um documento de 1938, assinado pelo então Secretário de Estado Eugenio Pacelli, no qual ele se opõe ao projeto de lei polonesa de declarar ilegal o sacrifício kosher, ao entender que esta lei «suporia uma grave perseguição contra o povo judeu».
Já como Papa, durante a guerra, Pio XII escreveu um telegrama ao então regente da Hungria, almirante Miklós Horthy, para que evitasse a deportação dos judeus, e este acedeu, o que se estima que salvou cerca de 80 mil vidas. Ao governo brasileiro pediu que aceitasse a 3 mil «não arianos».
Outro dos documentos que PTWF oferece é uma entrevista com Dom Giovanni Ferrofino, secretário do núncio no Haiti, Dom Maurilio Silvani. O prelado afirma que duas vezes por ano recebia telegrama cifrado da parte de Pio XII que remetia ao general Trujillo, presidente da República Dominicana, para pedir-lhe em nome do Papa 800 vistos para os judeus, com o qual se estima que pelo menos 11 mil judeus foram salvos por esta via.
Também se ofereceram provas de que o Vaticano falsificou secretamente certidões de batismo para permitir que muitos judeus migrassem como «católicos».
Uma descoberta pessoal
O empenho da PWTF obedece à própria determinação de seu presidente, Gary Krupp, judeu americano, que reconhece que cresceu «desprezando Pio XII», até que leu o livro de Dan Kurzman, A Special Mission: Hitler's Secret Plot to Seize the Vatican and Kidnap Pope Pius the XII. Nele se recolhe o testemunho do general Karl Wolff, que detalha o plano de Hitler de assaltar o Vaticano e raptar o Papa Pio XII. Sabe-se que havia espiões no Vaticano e franco atiradores alemães a menos de 200 jardas das janelas papais.
A mesma restrição das declarações públicas do Papa, que foi fonte de críticas contra ele, explica-se pelo aumento dos castigos nos campos de concentração, testificado por ex-prisioneiros, cada vez que altos cargos eclesiásticos falavam contra o regime nazista.
Outra descoberta que fez Krupp mudar de sentimentos, segundo suas próprias declarações, foi a prova de que «O Vigário», a famosa obra do comunista alemão Rolf Hochhuth, apoiou-se em documentos vaticanos manipulados, como parte de um complô secreto da KGB para desacreditar a Santa Sé. Esta informação foi revelada pelo Tenente General Ion Mihai Pacepa, o agente da KGB de mais alto escalão que desertou.
Gary Krupp assegurou estar «surpreso ao pesquisar pessoalmente artigos do New York Times e do Palestine Post entre 1939 e 1958. Não pude encontrar nem um só artigo negativo sobre Pio XII».
O esclarecimento sobre a figura de Pio XII foi assumido como objetivo pela PWTF para «eliminar um obstáculo que afeta 1 bilhão de pessoas» para o entendimento entre judeus e católicos. «Por justiça, nós, judeus, devemos ser conscientes dos esforços desse homem, em um período em que o resto do mundo havia nos abandonado».
"É o momento de reconhecer Pio XII pelo que fez, não pelo que não disse", acrescenta Krupp, que considera que a causa de que esta "lenda negra" permaneça é, por um lado, "a rejeição dos críticos de Pio XII de consultar e revisar a documentação recentemente desclassificada do Arquivo Secreto Vaticano", e por outro, "a negativa da maior parte dos meios de comunicação de dar cobertura às informações positivas sobre Pio XII."

obs.: essa notícia, retirada da rede de notícias Zenit, e - pelo menos até onde sei - não veiculada por nenhum grande meio de comunicação de massa - jornais, revistas, noticiários televisivos ou páginas da Internet com grande divulgação - dá bem a mostra de como um dos grandes problemas da atualidade está ligado ao imenso poder de manipulação da mídia. Não se trata de, neste caso especificamente, querer defender ou atacar a atuação de Pio XII durante a Segunda Grande Guerra. O intuito da divulgação desse texto está em deixar claro como é veiculado, sempre, apenas uma das versões. Seria o caso, por exemplo, de perguntar se alguém já ouviu falar de algum livro que mostre a versão do Vaticano sobre o assunto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Un Mauvais Rêve (Georges Bernanos)

Sobre a tensão intergeneracional



Ganse: Et comme ils ne laisseront rien, aucun souvenir, étant la sterilité même, la posterité ne s'occupera pas de les classer, elle les rattacher bêtement aux types connus. Jusqu'à ce que des circonstances plus favorables permettent à la nature, qui ne se lasse jamais, de recommencer la tentative manquée car, en somme, ces gaillards-là, mon cher, ont eu seulement le malheur de venir trop tôt, dans un monde trop... que vou dirais-je... trop "pathétique" - voilà le mot. Pathétique, de pathein, souffrir. Le christianisme a beau se dissoudre peu à peu de lui-même, notre monde occidental n'arrive pas à éliminer les plus subtils, les plus venimeux de ses poisons. Tous ce gens n'ont l'air empressés que de jouir, mais ils ont quelque part, dans un coin secret de leur vie, un autel dédié à la souffrance. E s'ils courent après l'or - qui n'est en somme que le signe matériel de la jouissance, - c'est avec un reste de honte, parce que la Pauvreté - la sainte Pauvreté - leur en impose toujours. Les Mainville ont échappé, je ne sais comment, à cette sorte de fétichisme, à cette crasse millénaire. Et comme ils manquent incroyablement d'imagination poétique, la singularité de leurs destin ne leur apparaît qu'à peine, ils restent intacts, nets et lisses comme des salles de clinique, quoi!

G. Bernanos, Un Mauvais Rêve, Librio, 1998, p.70-71.

uma tradução amadora e quase literal:

Ganse: E como eles não deixarão nada, nenhuma lembrança, sendo a própria esterilidade, a posteridade não se dará ao trabalho de lhes classificar, ela os colocará junto aos tipos comuns. Até o ponto em que circunstâncias mais favoráveis permitam à natureza, que jamais se cansa, de recomeçar novamente após a tentativa fracassada pois, em suma, esses rapazotes atrevidos têm apenas a infelicidade de vir cedo demais a esse mundo tão... como poderia lhe dizer... tão "patético" - eis a palavra. Patético de pathein, sofrer. Por mais que o cristianismo se dissolva aos poucos, por si só, nosso mundo ocidental não consegue eliminar o mais sutil, o mais nocivo dos seus venenos. Toda essa gente aparenta ter uma disposição apenas para fruir, mas possuem algum lado, em um canto secreto de suas vidas, um altar dedicado ao sofrimento. E se eles correm atrás do ouro - que não é mais que o símbolo material da fruição - , o fazem com um resto de vergonha, que a Pobreza - a santa Pobreza - se encarrega sempre de lhes impor. Os Mainville têm escapado, não sei como, desse tipo de fetichismo, dessa sujeira milenar. E como eles sofrem de uma incrível falta de imaginação poética, e apenas a muito custo percebem a singularidade de seu destino, permanecem intactos claros e lustrosos como as salas de uma clínica, ora pois!


O trecho acima foi retirado de uma conversa entre M. Ganse, escritor já de idade avançada, e seu amigo médico, o psiquiatra Dr. Lipotte. O escritor sente-se como que ameaçado por um de seus secretários, o jovem Olivier Mainville, filho de uma mulher com quem Ganse teve um affair anos atrás - antes, segundo ele, que Olivier nascesse. Ele o tem como um protegido, mas percebe nele um ódio reprovador de tudo o que faz, e também de sua literatura.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Eugenia vocabular

Novas das Ilhas Britânicas. Uma polêmica recente foi gerada pelo fato de que algumas palavras associadas ao cristianismo foram eliminadas de um dicionário inglês para jovens, editado pela Oxford University Press. Entre as palavras canceladas estão: abadia, altar, bispo, capela, batizar, discípulo, mosteiro, monge, convento, paróquia, salmo, púlpito, santo, pecado e diabo. Além desses termos religiosos foram também retiradas várias palavras que descrevem a natureza, como almíscar ou samambaia. Uma senhora chamada Vineeta Gupta (belo nome...) justificou assim as mudanças, em entrevista ao Daily Telegraph: "Se olharmos as versões anteriores dos dicionários, encontraremos ali muitos tipos de flores. Isso se devia ao fato de que muitas crianças viviam em ambientes semi-rurais (ainda não consigo escrever semirrurais, mas logo, logo me acostumo) e observavam o rodízio das estações. Hoje, o ambiente mudou. Nós nos tornamos muito mais multiculturais(!). As pessoas não vão mais à igreja, como antes. E o nosso conhecimento de religião ocorre dentro de um horizonte multicultural. Eis porque palavras como "Pentecostes" podiam ser atuais vinte anos atrás, mas hoje não".Fiquei pensando em que planeta estamos vivendo, ou, para usar um célebre questionamento cearense, que utiliza um termo riscado do tal dicionário inglês: "Que diabo é isso..."