quinta-feira, 14 de maio de 2009

Acalento e contemplação

Olhar atentamente para uma criança enquanto ela dorme aconchegada a você mesmo: poucas coisas há na vida que mais nos despertem tão agudamente o questionamento último da existência, o por quê último de toda a realidade. Falo isso porque a maioria das outras ocasiões em que somos levados a olhar nos olhos do sentido último da vida vêm normalmente acompanhadas de um desassossego que, de algum modo, tiram um pouco da pureza de uma reflexão entregue a si mesma. No caso da contemplação do rosto de uma criança de seis meses enquanto dorme, ou quando está quase dormindo, parece que é a própria vida que nos embala e aconchega. Há uma confirmação ontológica e atual da positividade última de existirmos - com todas as deficiências e desenvolvimentos que também confirmam nossa finitude - e de existir a realidade, em toda a riqueza de sua diversidade. De alguma forma, talvez isso ajude o fato de as pessoas 'modernas' serem favoráveis ao aborto e terem tanto pavor da morte. Pois uma verdadeira positividade da vida só é possível se é entrevista uma positividade que ultrapasse a morte. Que comece e faça sentido agora, mas que não seja dissolvida com a morte. Do contrário, perde todo o significado qualquer ação humana.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Fixismo e vanguarda

O perigo dos extremos



A tendência de se abrigar, enquanto mais jovens - ou querendo parecer, ou querendo teimar em continuar a ser o que não se é mais - em uma posição que tudo questiona, que quer começar tudo de novo outra vez, do "zero", destruindo ícones e construindo novas formas, novos conceitos e gerando novidades com o único intuito de desalojar 'o que está aí' se contrapõe a um certo imobilismo, um fixismo que procura com o mesmo extremismo, com a mesma energia polarizadora, se agarrar com unhas e dentes a uma certa forma consagrada em um determinado período da história. Essas tendências opostas - um tradicionalismo datado (um pleonasmo) e um 'novidadismo' auto-referente - podem ser verificadas tanto nas artes como em várias esferas da cultura, como a filosofia ou a religião.
Nesta última, pode-se perceber isso de forma clara se olharmos para a história recente do catolicismo. Após o Concílio Vaticano II houve como que uma espécie de 'empobrecimento' da austeridade litúrgica das missas católicas. Essa austeridade lhe conferia, de fato, uma beleza ímpar cada vez mais contrastante com o corre-corre da modernidade. Por um lado, isso poderia ser um fator de um distanciamento cada vez maior entre a religião católica e o homem moderno. Visto por outro ângulo, porém, é justamente essa austeridade que poderia sempre preservar e deixar sempre à disposição dessa humanidade moderna um mundo ao qual ele teria sempre menos possibilidade de acessar. Houve excessos na maneira como o concílio foi interpretado e utilizado por alguns (muitos) e também houve excessos no modo como foi rejeitado e mal-compreendido por outros (não tão numerosos e com bem menos 'poder de fogo' na grande mídia). Pode-se quase dizer que houve uma espécie de 'aliança' entre essa grande mídia e a corrente dos assim auto-denominados 'progressistas', que brandiam o Vaticano II como uma espécie de ruptura com um 'passado sombrio' da 'antiga' Igreja e uma sua abertura aos novos tempos. Em minoria, do outro lado, os chamados 'conservadores' - às vezes xingados de 'ultra-conservadores' - lançavam anátemas ao concílio, afirmando que ele não trouxera nada de bom para a Igreja. Ele teria apenas dilapidado e vilipendiado o grande tesouro da tradição católica. Acho que nem uma coisa nem outra, e um pouco das duas.
A Igreja não vive tempos fáceis hoje. Não se sabe, e é arriscado qualquer palpite mais convicto, se viveria tempos melhores caso tivesse continuado com a mesma face da década de 50. Muita coisa preciosa foi barateada nesse meio termo, mas muitos e novos elementos foram dados aos católicos para que estes enfrentem a modernidade de cabeça erguida e não necessariamente amparados por alguma doutrina filo-marxista. Afinal, se Cristo é a Verdade, essa Verdade deverá ser válida em qualquer tempo, e é isso que está sendo posto à prova atualmente, de uma forma dramática. Essa dramaticidade, no entanto, não é, de forma alguma, estranha ao cristianismo. Ao contrário, faz parte de sua essência. É de sua essência ser 'combatido' pelo mundo. E o cristão é, desde o início de sua história, chamado a combater 'o bom combate'. Um dos três elementos consagrados pelo catolicismo para esse bom combate é justamente a Tradição. O refúgio na Tradição da Igreja sempre foi e sempre será um remédio adequado para qualquer tipo de conturbação ou falta de identidade pelas quais ela sempre estará ameçada enquanto caminhar neste mundo, peregrina e pecadora. Só um olhar sereno para a Tradição conseguirá evitar o perigo de um tradicionalismo fixista e calcificado e de um 'catolicismo pós-moderno' protestantizado. E seja ressaltado aqui que a protestantização do catolicismo não é um fenômeno que esteja mais presente nas celebrações carismáticas do que - muito mais perigosamente - na individualização e 'privatização' da fé católica - como se isso fosse possível. Um complexo anti-romano acaba por unir, de certa forma, esses dois extremos. Um - o tradicionalista - tenta ser mais papista que o próprio papa e, se não consegue, chega mesmo a criar um cisma na Igreja. O outro lado tenta ser anti-papista, afirmando que isso, sim, é ser verdadeiramente católico.
Mais uma vez, o grande recurso que os católicos têm para se livrar dessas duas tendências sectárias é a postura exemplar dos seus santos. Os santos atuais da Igreja, aqueles que vivem ou que viveram nestes últimos anos, e que remetem nosso olhar para o único Santo dos Santos e para a ação vivificante de seu Santo Espírito. Na atitude de pessoas que viveram na carne a fidelidade à Igreja com humildade, mesmo diante das mais cruéis ou veladas perseguições, está a pista para o antídoto contra os excessos. São elas que nos mostram que a Tradição da Igreja é viva e, na perenidade de suas verdades, descobre novas formas de diálogo que enfrentem a dura tarefa de resgatar o homem de hoje do emaranhado confuso de informações a que está submetido, e restaurando-lhe sua verdadeira humanidade, que busca não menos que o infinito. Só um relacionamento leal com a Tradição permite que não se caia nem no tradicionalismo formalista nem na perda da memória, conseqüência de pretensos 'rompimentos' com o passado.

O paradoxo do tempo

Quanto mais se desenvolvem máquinas que nos poupariam tempo, menos tempo parece que temos

Prova disso é o fato de que só hoje, quase um mês depois que consegui um tempinho para escrever alguma coisa nesse blog, é que consegui acessá-lo de novo. E só estou escrevendo para 'cumprir tabela'. Afinal, tive pouco tempo para ler, ou ao menos para filtrar algo do que li e que pudesse ser colocado aqui. O que, também, não tem a menor importância para o caminhar - ou o correr cada vez mais desenfreado - da humanidade.
Pode-se, porém, detectar uma coerência: quanto mais o tempo passa, menos tempo temos.



segunda-feira, 23 de março de 2009

O espelho musical do século XX: Dmitri Schostakovich

Conversei rapidamente com o maestro Gennady Rozhdestvensky, grande regente russo nascido em 1931. O ensaio da Décima Sinfonia de Dmitri Schostakovich (1906-1975) havia acabado poucos minutos antes. Rozhdestvensky mantivera sua fama de fazer ensaios curtos, encerrando o ensaio 1 hora antes do normal. Incrivelmente, ninguém sentiu falta dessa hora, pois ele fez tudo o que quis com essa grande música, em seus gestos econômicos, mas extremamente expressivos e acompanhados de um certo bom humor que ajudou, de alguma forma, a chamar a atenção da Sinfônica de São Paulo para os inúmeros detalhes da obra. Na conversa rápida, perguntei-lhe se havia encontrado com Schostakovich. "Me?! A thousand times!!", respondeu-me em tonalidade intermediária entre o orgulho e a serenidade dos seus mais de 78 anos. "E como ele era?", insisti. "A simple genius!", soou a resposta, precisa e econômica como os seus gestos no ensaio. Falei para ele, então, que considero a obra de D. Schostakovich talvez a melhor tradução musical do século XX. Ele balançou a cabeça em concordância e acrescentou, de forma definitiva: "A mirror! He is the musical mirror of the XXth century", e se despediu educadamente.
Fiquei repensando na vida e obra desse compositor russo que praticamente nasceu e viveu junto com a Revolução de 1917. Viveu toda a esquizofrenia que o stalinismo incutiu em sua alma, tendo de submeter suas composições à aprovação de comissariados de burocratas que julgavam se as músicas tinham valor para a sociedade ou se representavam o decadentismo burguês. Caiu em desgraça e foi reabilitado mais de uma vez. E usou de um artifício interessante para, em meio às "descrições" do valor do grande povo soviético, colocar em várias de suas músicas uma "assinatura" musical: as notas ré, mi bemol, dó, si natural. Na grafia musical alemã: D, Es (que soa 's'), C e H - D.SCH. E foi usando notas musicais - algo quase herético para os "compositores" ditos contemporâneos - que ele conseguiu captar musicalmente a alma do homem do século XX, com sua ironia melancólica, seu grito - seu apelo, como diz Camus - que parece ressoar no vazio kafkiano da desesperança, e a força quase esmagadora das tradições populares que sobrevivem, não se sabe como. Muito mais contemporâneo - porque mais humano, e ligado à história que vivia - do que qualquer artificialismo cerebral pretensamente cosmopolita que ressoa pelas faculdades de música mundo afora.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Camus e a liberdade absurda

a confrontação entre o apelo humano e o 'silêncio despropositado do mundo'

Agora o principal está feito. Detenho algumas evidências de que não posso me separar. O que sei, o que está certo, o que não posso negar, o que não posso rejeitar, eis o que vale. Posso negar tudo ness parte de mim que vive de nostalgias incertas, menos esse desejo de unidade, essa fome de resolver, essa exigência de clareza e coesão. Posso contrariar tudo nesse mundo que me envolve, me choca ou me transporta, menos esse caos, esse rei acaso e essa divina equivalência que nasce da anarquia. Não sei se esse mundo tem um sentido que o ultrapasse. Mas sei que não conheço esse sentido e que, por ora, me é impossível conhecê-lo. Que significa, para mim, significado fora da minha condição? Só tenho como compreender em termos humanos. O que toco, o que me resiste, eis o que compreendo. E essas duas certezas, meu apetite de absoluto e de unidade, e a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável, sei também que não posso conciliá-las. Que outra verdade posso reconhecer sem mentir, sem fazer intervir uma esperança que não tenho e que nada significa nos limites da minha condição?

trecho retirado de O Mito de Sísifo, de Albert Camus

segunda-feira, 16 de março de 2009

Música contemporânea: reflexo do pensamento moderno

Fui convidado para fazer parte de uma gravação de músicas de compositores atuais, alguns de nome já relativamente conhecido, outros recém-formados em algumas das academias mais conceituadas do país - USP e Unicamp, por exemplo. Não tive como recusar, pois era um projeto bem organizado, que não entraria em conflito com minhas obrigações musicais com a Sinfônica do Estado de São Paulo, onde trabalho, e com uma boa remuneração, que é benvinda nessas circunstâncias atuais - fim de reforma da casa + filha nova na área.
O trabalho vem sendo feito há mais de uma semana, mas não tenho como não pensar na distância abissal entre o que os próprios músicos acreditam, de fato, que seja música e aquilo que vem sendo "composto" atualmente, aquilo que parece ser o resultado da "evolução" musical empreendida ao longo das décadas do glorioso século XX. E falo isso como músico instrumentista, uma opinião partilhada com os colegas que estão gravando junto. Fico pensando como é que chegamos a isso e o que isso que estamos gravando tem a ver com a realidade que vivemos, que relação há entre essa "criação artística" e a vida. E o pior é que acho que, infelizmente, há uma ligação, sim, entre essa cultura destilada diretamente da Academia e a chamada "ditadura do relativismo" que respiramos nos dias de hoje. De uma certa forma, por mais torta que seja essa forma, esses compositores expõem, de forma clara e evidente a quem quer que se habilite a ouvir, a tradução em música da total falta de crença e a total impossibilidade de afirmação positiva de mais nada. Nesse rumo, pode-se perfeitamente dizer que há algo de "genial" naquilo... Mas que as aspas que cercam esse termo - genial - sejam bem percebidas, para que a relatividade tão atual do termo seja percebida em toda a sua exuberância

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Viktor Frankl: responsabilidade individual e coletividade

trecho de uma entrevista ao professor Eugenio Fizzotti, salesiano professor de psicologia, sobre o pensamento do criador da Logoterapia


–Quais as contribuições de Viktor Frankl ao conhecimento humano e que atualidade elas têm?

–Professor Fizzotti: Concentrando sua atenção como psiquiatra e como estudioso na construção psicológica da «busca do sentido», Frankl favoreceu no horizonte cultural e formativo atual o reconhecimento de um dinamismo central da estrutura da pessoa, na maior parte das vezes lamentavelmente descuidado, ou até negado por outros especialistas da psique humana. É muito mais simples, de fato, atribuir a responsabilidade do que se é à influência familiar, a condicionamentos ambientais, a fracassos escolares ou profissionais. Assim, a pessoa quase é «justificada» em seus comportamentos (pensemos em formas de agressividade, de criminalidade, de consumo de substâncias entorpecentes, de tentativas de suicídio), dizendo-lhe: «No fundo não é culpa sua, mas da sociedade, da escola, da família». Em um itinerário educativo e de crescimento global é muito necessário, no entanto, favorecer na pessoa o amadurecimento de sua responsabilidade frente às tarefas que a vida, a sociedade, o contexto cultural lhe apresentam. Dessa forma, também é estimulada a reconhecer os próprios recursos interiores e apelar a eles sempre, além de fazê-lo nas situações de particular gravidade. Ao mesmo tempo, a responsabilidade favorece na pessoa um clima de enfrentamentos dialéticos, rompendo o círculo da solidão e do egocentrismo.

(a questão de onde está a responsabilidade última dos nossos atos é algo sempre atual. Por isso mesmo acho importante o ponto de vista de V. Frankl a respeito da importância de uma educação que leve o indivíduo a uma procura pelo fundamento último que sustenta sua visão de mundo. Ou seja, aquilo que, para ele, daria sentido à própria existência e à realidade como um todo. Obviamente, é uma questão extremamente aberta, mas é justamente por isso que deve sempre ser retomada, pois pode representar sempre uma possibilidade de se evitar, como o entrevistado afirma, a solidão egocêntrica e a coletivização exagerada de responsabilidades e de uma liberdade que, em última instância, são pessoais, individuais.)